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André Fernandes convidou os amigos a participarem da comunidade Coleção de Bolso Hedra no Orkut; parece haver bons títulos.
Escrito por rodrigofrias às 16h00
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O natal do Marcell
Marcell andava tristonho porque naquele ano, mais uma vez, o natal seria magro: o patrão não lhe pagava o 13o e a namorada o abandonara. Mas, na noite de 23 de dezembro, Marcell aceitou um trabalho como garçom em um bufe em Alphaville: trabalhando das vinte às vinte e quatro horas ganharia o suficiente para um belo peru de natal. Assim foi, mas ele precisou voltar para casa a pé e solitário pela rodovia sombria, já que não havia mais ônibus nas ruas. Por volta das três da manhã encontrou-se com um senhor ofegante que buscava tomar ar no acostamento; parecia tratar-se, como ele, de um assalariado. Era, se os relatos são verídicos, um desses velhinhos que todo final de ano se fantasiam de Papai Noel em uma tentativa inútil de complementar o necessário para os medicamentos. Se foi a sorte de ambos ou se foi a Divina Providência não se sabe ao certo: o fato é que Marcell ajudou o bom velhinho a recompor-se, oferecendo-lhe um trago no providencial boteco próximo. O rapaz não lembra direito como foi parar em casa: não é muito freqüente o contrário, já que o pobre jovem suporta as agruras do Vale das Sombras apenas com o auxílio da cevada. Acordou por volta das quinze horas, suando frio e ofegante, as mãos tremendo e uma mancha misteriosa a empapar-lhe a camisa. Ao levantar, no entanto, tropeçou desorientado em um belo embrulho. Tratava-se de uma cesta de vime repleta de quitutes: um tender, um chester, granola, panetone, champagne, nozes, avelãs e fatias de pão francês douradinhas e polvilhadas com açúcar. E foi assim que Marcell teve um extraordinário natal, se empanturrando de guloseimas enquanto assistia as versões antigas de Planeta dos Macacos.
Escrito por rodrigofrias às 02h26
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UM APELO
Deputados federais e senadores contam, além dos salários, com verbas como auxílio-aluguel, auxílio-viagem e caixa para despesas de gabinete. O custo mensal de cada um destes mais de quinhentos profissionais é uma cifra próxima a R$ 100.000,00, número bem distante da realidade do povo brasileiro.
Aprovou-se, recentemente, um aumento de 90,7% do salário destes mesmos parlamentares para o próximo ano, o que, se não for impedido, os aumentará para R$ 24.500,00. As despesas anuais extras que este aumento representam giram em torno de 175 milhões de reais. Sabe-se que, do ponto de vista estritamente salarial, deputados estaduais ganham 70% do salário de seus colegas federais; e que os vereadores ganham 70% do salário de seus colegas estaduais. Este aumento, portanto, teria um efeito cascata.
E ainda se discute se o salário mínimo terá um aumento de 17 ou de 25 reais nos próximos meses: o impacto conjuntural deste aumento do mínimo é discutido com ânimos muito mais inflamados do que aquele, que pelo menos entre quase a totalidade dos líderes de partidos em nosso Poder Legislativo.
Está circulando pela rede um abaixo-assinado contra este aumento extorsivo: o endereço é http://www.petitiononline.com/oeleitor.htm/. Peço que você entre lá e deixe a sua assinatura: o que é “previsto em leis” nem sempre é ético ou justo. Façamos mais este esforço para evitar mais este soco no estômago do povo brasileiro.
Escrito por rodrigofrias às 13h17
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A Antologia
“A Antologia é a viagem metafórica de Antônio em busca da constituição do sujeito”. Horácio Villaça.
I
Antônio levantou-se bem mais tarde que de costume. Barba a fazer, já não se preocupava mais em manter as aparências na busca de um eventual emprego. Não descobriria mais as ilhas nem raptaria as sereias e jamais enfrentaria moinhos de vento novamente: fumaria um cigarro acompanhado por café, vestiria o pano à mão e iria à rua, ao encontro de seu mais recente bico. Era avião agora, tarefa conquista em parte por sua aparência intimidadora: carregara muito saco de cimento e seus braços fortes estrangulariam um pescoço com facilidade. Era avião e o dia lhe reservava grana fácil. Mudaria de vida, tinha certeza: sairia da merda. Por isso, quando a mulher trouxe o pequeno loirinho, exigindo em nome do filho que deixasse de cachaça, vadias e vagabundagem, limitou-se a espancá-la, e ao menino. Matou os dois. Apanhou os trocados ainda restantes em casa, tomou sua birita de costume e partiu. Era avião. Não, não levantaria às quatro da madrugada novamente para ir da Cohab a Cotia de trem exercer uma funçãozinha de servente miserável. Naquela manhã, perto do meio-dia, tomou pela última vez o trem lotado e, na última viagem àquele inferno, visitou o ex-patrão. Todos bebiam na obra e não era justo o cabra demitir bem a ele, Antônio, pai de um filho, deixando os outros bebuns trabalharem normalmente. Quando viu o cabra limitou-se a apanhar o ferro mais próximo de sua mão direita e a esmagar a cabeça do desinfeliz com ele. Vasculhou o corpo partido e arrancou da carniça uma carteira. Deixou o cadáver ali, na obra mesmo, e foi embora. Nenhum dos ex-amigos ousou atravessar-lhe o caminho: os fracos e os covardes. Pegou o trem outra vez: para Caieiras, seu novo lar.
Escrito por rodrigofrias às 17h56
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GREGOS E LATINOS I
Que me perdoem os vivos, mas é fundamental ler os mortos. O Observador no Escritório recomenda a leitura de dois grandes épicos gregos e de um latino: tratam-se da Ilíada, da Odisséia e da Eneida, indicadas em nossa nota falsa sobre os “Cinqüenta Melhores”. A Editora Atena, se não me engano, ofereceu ao leitor brasileiro as suas versões em português; devo lembrar também das versões adaptadas para a prosa da Editora Cultrix, que se as mutilam as tornam um pouco mais acessíveis a leitores com a minha capacidade intelectual. Os épicos de Homero são importantes porque se tornaram fundamentais para a caracterização – ainda que abstrata, posto que aglutinasse pelo menos algumas dezenas de povos – do povo grego em sua época áurea e representam o mais fino de sua cultura e civilização. O de Virgilio é o fundador mítico do povo latino e um importante modelo literário para este povo. As obras de Homero, sobretudo, ancoraram parcela importante de alguns milênios da teoria e da crítica literária ocidentais e de sua própria literatura. Parte dos melhores escritores do século XX retornaram, eles próprios aos clássicos: iniciar sua leitura pelas três épicas aqui indicadas é fundamental para a compreensão da própria literatura moderna.
Escrito por rodrigofrias às 17h54
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